BOA LEITURA
número13
Salvador, dezembro de 2009

Resenha

GUAZZELLI, César Augusto Barcellos; DOMINGOS, Charles Sidarta Machado; BECK, José Orestes; QUINSANI, Rafael Hansen(Orgs).
A prova dos 9: a história contemporânea no cinema. Porto Alegre: EST Edições & Letra e Vida Editora, 2009.
por Vicente Gil da Silva


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Comentário
QUAGHEBEUR, Marc; BERND, Zilá; ABREU, Leonor de; PONGE, Robert (Orgs.).
Entre o real e surreal: antologia da literatura belga de língua francesa. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2009, 504p.

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Comentário

SOARES, Licia. Literatura e cinema. Traduções intersemióticas. Salvador: EDUNEB, 2009.

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O cinema espanhol tem nos impressionado pela sua riqueza artística e por pensar, pelas imagens, em perguntas políticas (Bunuel, Saura, Erice, Berlanga, Aranda). Esta riqueza artística continuou no fim da ditadura com perguntas políticas sobre a história recente espanhola, como a guerra civil e o franquismo. O livro Memoire du cinema espagnol (1975-2007) (Memória do cinema espanhol, Corlet Editions CinémAction, 2009), organizado por Pietsie Feenstra, propõe uma tipologia da memória do cinema espanhol durante três períodos, acompanhada por visões transnacionais. O estatuto das "imagens memoriais" confirma este diálogo entre sociedade e política: o cinema é efetivamente a arte da memória por excelência.
A sobrevivência do sistema capitalista tem um custo social altíssimo, crescente e inaceitável. Ele se manifesta na devastação e degradação ambiental, no declínio da qualidade de vida para a classe trabalhadora dentro e fora do ambiente de trabalho (nas ruas e bairros, por exemplo)e, em especial nos indicadores sociais. No entanto, existe um esforço ideológico incessante – e muito bem remunerado – por parte de uma legião de estatísticos, tecnocratas, economistas, professores, jornalistas e ideólogos da ordem em geral, no sentido de procurarem “ provar” que as coisas estão quase sempre melhorando, ou de lançarem mão de um índice ou outro para “mostrar” que as coisas vão ficar boas para o trabalhador ou que o capitalismo, além de ser o único mundo possível pode ser humanizado e até reformado.
O livro A estatística da miséria e a miséria da estatística, organizado por Gilson Dantas e com textos de Hélio Rodrigues, Osvaldo Coggiola e Juan Chingo, foi, em sua maior parte, escrito antes da eclosão da atual crise capitalista mundial, coloca-se, portanto, em uma perspectiva crítica à miséria política e ideológica do discurso da estatística e da econometria da ordem e suas utopias reacionárias de “melhorar” o capitalismo.
Fórmula que deverá permitir a captura da "vida sobre a vida", o documentário, interpretado como promessa da "verdade", responde ao sentimento geral. Na televisão, testemunhamos a ascensão dos "reality shows” e das novelas, considerados documentários, numa nova onda denominada "docu-ficção". Nesse sentido, grandes cineastas continuam a inventar uma poderosa mistura de documentário e ficção, que pode mostrar-nos os nossos modos de ver e crer, e iluminar o mundo em que vivemos. Suas invenções cinematográficas nos permitem distinguir melhor os poderes dos dois tipos. Essas e outras questões são tratadas por François Niney em Le documentaire et sés faux-semblants (Klincksieck, 2009).
Quais foram as regras estabelecidas para o cinema nos regimes autoritários? Como os profissionais de cinema - escritores, realizadores, atores, produtores, distribuidores, exibidores - foram enquadrados nessas regras? Tiveram alguma margem de manobra? Como funcionou exatamente a censura? O que os espectadores realmente viram nas salas de cinema? Analisando os regimes autoritários da União Soviética, do Japão, da Itália fascista, de Salazar em Portugal, da Alemanha nazista, da Espanha de Franco, da França de Vichy, da China maoísta, dos militares brasileiros, dos coronéis gregos e de quatro "democracias populares" (Hungria, Polônia, Alemanha Oriental e Tchecoslováquia), o livro Cinema et regimes autoritaires au XXe siècle. Écrans sous influence, organizado por Raphaël Muller e Thomas Wieder, com prefácio de Pierre Sorlin, procura responder a essas questões.
Fruto de um grupo de investigação que contou com a participação de pesquisadores franceses e estrangeiros, é a primeira visão comparativa da história política e social do cinema nos regimes autoritários do século XX.
O livro Cenas brasileiras. O cinema em perspectiva multidisciplinar (1928/1988) (EDUFRN, 2009), organizado por Marcos Silva e Bené Chaves, apresenta comentários sobre filmes brasileiros feitos entre 1928 e 1988. Durante essas seis décadas, múltiplos estilos de cinema foram desenvolvidos, incorporando conquistas técnicas de cada momento, expressando debates culturais e políticos de grande peso pra a sociedade brasileira e para o mundo, inquietando ou divertindo seus públicos. Fazer cinema no Brasil é frequentemente uma dura luta contra dificuldades financeiras, técnicas e de divulgação. Apesar disso, foi possível constituir uma tradição que inclui importantes diretores, atores, técnicos e críticos. A arte vence a cada bom filme, embora apresente cicatrizes produzidas naquelas lutas. O livro procura contemplar diferentes gêneros cinematográficos, visando a entender sua grande importância e consolidação desse trajeto nacional, em diálogo com o cinema de outros países.
As adaptações, influências e referências da produção literária nas obras cinematográficas são investigadas sob a ótica do historiador e do cientista social, tecendo um fio flexível e sutil, que atravessa o livro Metamorfoses das linguagens (Histórias, Cinemas, Literaturas) (LCTE Editora, 2009), organizado por Marcos Silva, Júlio Pimentel Pinto e Maurício Cardoso, no seu conjunto. Sem ingenuidade, os autores desta coletânea não advogam as velhas causas da fidelidade à obra literária, nem destilam preconceitos pautados numa inverossímil dicotomia entre a alta cultura literária e o cinema entretenimento.
Poucas guerras, como a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), têm sido tão tratadas em filmes documentários e de ficção. Já durante a guerra, cineastas alemães, franceses e soviéticos filmaram suas causas, considerando os seus “dois lados”. O livro Delírios de aviación y tierra de España (Instituto Cervantes, 2009) nos revela películas de diferentes procedências ideológicas e políticas que partem de episódios e materiais fílmicos comuns.
Em Brasil fora de si. Experiências de brasileiros em Nova York (Parábola, 2004), depois de cinco anos de dedicação, José Carlos Bom Meihy produziu um documento impactante, que introduz o leitor na cena e na intimidade de pessoas que jamais imaginaríamos em Nova York: cozinheiras, garçons, empregados de restaurantes, engraxates, dançarinas, dançarinos, jogadores de futebol, sacoleiras, empregados de aluguel... As vidas retratadas poderiam ser de personagens de ficção, se não fossem o resultado de uma vasta pesquisa, compreendendo cerca de 700 entrevistas feitas no arco de cinco anos. O resultado de tão numerosos dramas produz um quadro social gravíssimo, pela primeira vez descrito de modo tão incisivo. Juntar 700 peças biográficas num mosaico analítico como este é um feito tão significativo quanto a ousadia de cada um desses emigrantes. A história oral torna-se aqui militância qualificada e instrumento precioso para sugerir políticas públicas ou reivindicar soluções adequadas.
O livro Mentalidades y políticas wingka: pueblo mapuche, entre golpe y golpe (de Ibáñez a Pinochet), (Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2007), organizado por Augusto Samaniego Mesías e Carlos Ruiz Rodriguez, se refere a mentalidades, discursos e práticas do Estado e da sociedade chilena frente o povo mapuche. É resultado de uma investigação historiográfica acerca das relações entre o povo mapuche e o Estado e a sociedade chilena, especialmente no sélculo XX, entre os governos ditadoriais de Ibáñez e de Pinochet (1927-1990). A análise se debruça sobre as mentalidades e ideologia wingka (chilenas, não mapuches) com respeito a “questão mapuche”. Esta revisão histórica contribui com a criação de uma Nova Relação entre o Estado e a sociedade chilena em respeito ao povo indígena mais numeroso.
No livro Nacionalismos anti-racistas. Manoel Bomfim e Manuel Gonzalez Prada (Brasil e Peru na passagem para o século XX) (LCTE, 2009), Ricardo Sequeira Bechelli analisa de maneira original, como na passagem para o século XX no Brasil e no Peru, os discursos anti-racistas de Manoel Bomfim (1868/1932) e de Gonzalez Prada, (1844/1918) traduziram posturas nacionalistas semelhantes em face aos preconceitos raciais, a defesa do índio, a crítica ao conservadorismo político e a ideologia do branqueamento.
Cerca de vinte anos no Gulag não fez de Jacques Rossi um homem amargo, mas um homem livre para sempre, extremamente lúcido, cujo humor negro surpreende a maioria dos leitores. Para ele, viver em prisões soviéticas, descritas como "laboratórios de engenharia social", foi uma oportunidade única para observar o sistema soviético exposto, sem máscara. Nessas histórias, Jacques Rossi descreve o universo Gulag diariamente. Seu testemunho alucinante é servido por um script que exclui qualquer sentimentalismo. Isso nos permite ver o sofrimento da humanidade através das vidas mutiladas, de mulheres e homens quebrados, cujo único crime, aos olhos do regime de Stalin, foi simplesmente nascer. O livro Qu´elle était belle cette utopie! Chroniques du Goulag (Le cherche midi, 2000) é indispensável para quem deseja entender como uma utopia pervertida tornou-se barbárie para milhões de vítimas.
O conceito de “guerras de memória” é onipresente no noticiário. Ao redor do mundo, a memória, o passado e a história tornaram-se questões políticas da grande mídia. Os usos políticos da história não é novo, eles começaram com o surgimento da própria história. A edição 52 da Revista Hermès – Les guerres de mémoires dans le monde, organizado por Pascal Blanchard, Marc Ferro e Isabelle Veyrat-Masson, torna esse conflito em objeto de estudo e de decodificação.
Dividido em três grandes temas (Colonização e escravidão, O fim das ditaduras e Holocausto, genocídio e massacres) esse número da Revista é referência para todos os interessados em comunicação, história, memórias e os seus problemas. Compreender essas estratégias midiáticas e seus efeitos políticos é compreender como funcionam as sociedades e sua relação com o passado.


Escrever sobre a Guerra Civil Espanhola (1936 – 1939) é responsabilidade sempre premente e prenhe de consequências capazes de sugerir explicações sobre o perfil do mundo contemporâneo. Mesmo sendo um dos temas mais fecundos da historiografia, apesar de ter gerado vasta produção, ainda carece de exploração que extrapolem os limites sempre renovados pelas artes em geral. Curiosamente, o cinema, a literatura, a pintura e a fotografia insistem no tema e ora ‘inventando’, ora ‘reinventando’ aspectos, produzem profícua memória que também se torna matéria de estudos. À história, porém, faltam ainda trabalhos, sobretudo integrativos, que estabeleçam vínculos entre arquivos e múltiplas séries documentais espalhados mundo afora.
Um dos ângulos inovadores da reflexão sobre aquela guerra, considerada o último grande sonho romântico da humanidade, é o estudo atento às relações de países e culturas que foram colonizados pelos velhos impérios ultramarinos, ibéricos. A América Latina, neste ponto, é mostra de potencialidade explicativa do mundo pós-colonial. Não faltam sugestões para que se pense como os “filhos” puderam ajudar a “pátria mãe”. Como reversão do processo colonialista, a participação de países latino-americanos merece cuidados até então pouco abordados.
Uma das atenções de que se reclama ao pensar os estudos integrativos – que, aliás, respondem aos desafios de uma historiografia, nascente, de contornos globalizadores – é exatamente a importância de pesquisas sobre os comportamentos nacionais de parcela de estados que tiveram a ibéria como matriz de suas instituições principais. De maneira sutil, tal acercamento implicaria desfazer a prática em voga de estudar a participação nacional, de diversos países e culturas, independentemente de seu remoto passado histórico. Assim, pergunta-se: seriam as motivações para tais envolturas apenas as imediatas e de solidariedade universal? Valeriam os mesmos critérios fossem para latinoamericanos, norteamericanos, europeus? Ou, em chave diferente, valeria pensar na especificidade da América “de raiz ibérica”. E como individualmente, os cidadãos se aprontaram para vencer entraves que iam desde a falta de dinheiro, os compromissos de classe e estamentos sociais, os limites das censuras governamentais, os posicionamentos dos próprios estados?
Para responder a estas questões, um estudo sobre a participação de brasileiros na Guerra Civil Espanhola foi elaborado. Com o titulo A revolução Possível: história oral de soldados brasileiros na Guerra Civil Espanhola, publicado pela Editora Xamã, SP. No final de 2009, o professor da USP, José Carlos Sebe Bom Meihy, fez longas entrevistas com os cinco últimos sobreviventes brasileiros que participaram daquele conflito. No livro, além das histórias pessoais o autor procede a um estudo introdutório onde inscreve detalhes das histórias de vidas desses soldados. Porque não puderam realizar no Brasil a pretendida Revolução, depois de perseguições e anos na prisão, os rebelados de 1935, vislumbraram possibilidades de luta na Espanha como ideal tangível. Foram, no total, mais de cem horas de gravações, feitas múltiplas vezes e autorizadas pelos colaboradores. O resultado é convite aberto a futuros e complementares estudos.



Gênios ou loucos? Aproveitadores ou revolucionários? Conheça a história de homens e mulheres que não desfilaram pelos tapetes vermelhos de Hollywood. Personagens que escreveram a história do cinema por linhas tortas, pavimentando o caminho para as grandes produções. Nomes como Roger Corman, Russ Meyer, Mario Bava, Terence Fisher e Jess Franco, que abriram passagens, quebraram tabus e tornaram-se mitos, influenciando até hoje cineastas da estirpe de Tim Burton e Quentin Tarantino.
Cemitério perdido dos Filmes B, de César Almeida, traça um panorama do Cinema de baixo orçamento através das resenhas de 120 produções de diversos gêneros. Um retrato honesto e divertido dos heróis não celebrados da Sétima Arte.

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Conheça outros projetos do grupo acessando O cinema na sala de aula e O profano é sagrado na Bahia.
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